08/03/2023 às 22:06

Entrevista com Fernando Ribeiro (Moonspell)

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Fernando Ribeiro é o cara por trás do Moonspell, maior fenômeno do metal português de todos os tempos. Conversei com ele sobre a turnê no Brasil, que será nos seguintes dias: 7 de abril - Porto Alegre (RS), 8 de abril - Curitiba (PR), 9 de abril - Limeira (SP), 11 de abril - Brasília (DF), 12 de abril - Belo Horizonte (MG), 13 de abril - São Paulo (SP). Boa leitura!

Obrigado pela entrevista! O Moonspell comemora 30 anos com uma turnê especial. Olhando para trás, qual foi o ponto mais difícil da carreira da banda? E qual o sentimento de alcançar toda essa longevidade?

Prazer! Eu penso que os momentos mais difíceis são as separações com os antigos elementos da banda, sempre complicado. O momento que mais marca Moonspell é o lançamento do disco "Sin/Pecado" em 1998 (primeira vez que fomos no Brasil), porque passamos de uma banda consensual e novidade coqueluche do metal europeu para uma banda divisora e complexa, tudo por causa de mudanças musicais. O sentimento...não sei... penso que a música é um encontro entre algum sucesso e insucesso e que tudo faz parte, por isso também não há que exagerar, mas, com certeza, tem sido uma vida diferente e meio que alucinante.

O último álbum de estúdio "Hermitage" traz temas com menos fantasia e mais voltados para a sociedade. Como surgiu a ideia de falar sobre esses assuntos?

Necessidade, zeitgeist, não sei, foi esse o caminho encontrado. A ideia era fazer com que o mundo místico dos santos eremitas encontrasse uma ligação com a atualidade e que existisse esse contraponto, clássico e contemporâneo. Acredito que o passado terá o condão de ensinar, mas duvido que alguém queira aprender. O distanciamento social não começou com a pandemia, se desenvolveu, mas somos como que eremitas uns dos outros.

No álbum "1755", o Moonspell fez uma ótima versão de "Lanterna dos Afogados". Qual a sua relação com o rock brasileiro de forma geral? Existe mais alguma banda daqui que você gostaria de fazer um cover?

A música Brasileira é do melhor que se faz no mundo, nos seus vários estilos. Começando pelo Metal, obviamente Sepultura e Sarcófago, mas também The Mist, Genocídio, Dorsal, Vulcano, Mutilator, Aamonhammer e agora Troops of Doom me marcaram muito. Em Portugal nós escutamos muita coisa do Brasil e fomos crescendo ouvindo de tudo, Desde Chico Buarque a Fafá de Belém, desde Rita Lee a Raul Seixas, sei lá, Nelson Ned, Sydney Magal, sempre se escutaram nas casas portuguesas. Eu tenho muitas ideias de versões da música Brasileira para nós, os Sepultura já roubaram “Do caos à Lama”, mas eu gostaria de cantar os “Mistérios da Meia Noite” do Zé Ramalho ou algo até de heavy metal como Sarcófago (fazíamos versão do “Nightmare” em 1990)

Você estudou Filosofia na faculdade. Qual foi o impacto desses estudos na sua vida como músico, letrista e poeta? Qual filósofo é o seu favorito?

Teve um grande impacto. Eu acredito que a cultura estimula a criatividade e que é o aproveitamento do estudo e da pesquisa, que pode fazer a diferença entre uma boa letra e uma letra vulgar. No caso do Iron Maiden, muitas letras do Bruce são perfeitas, porque demonstram o seu estudo e talento. No caso do Moonspell, estudar Filosofia trouxe-me outra abertura de espírito e mais solidez no que escrevia, evitando repetir os disparates recorrentes nas letras de Metal ou a sua previsibilidade. Também me trouxe outros temas e perspectivas, já que nos dois primeiros discos eu falo quase sempre de fantasia, e no Sin, tem outro enquadramento mais humanista. Tenho muitos filósofos prediletos, mas é a escola alemã que mais fascina: Kant, Hegel, Feuerbach e Nietzsche. Também devo referir Voltaire e dos contemporâneos Deleuze ou Cioran.

Já que estamos falando sobre literatura, em Portugal temos grandes nomes históricos como Camões e Fernando Pessoa. Qual sua opinião sobre eles?

Verdade. Eu penso que será a literatura a mais forte expressão artística de Portugal. Camões e Pessoa são os pilares da mesma, mas existem inúmeros outros autores, Miguel Torga, Eça de Queiroz, Lobo Antunes, Sophia de Mello Breyner Andersen, Herberto Helder, Natália Correia que ajudam a compreender melhor a alma lusitana.

Como foi gravar o álbum ao vivo "From Down Below – Live 80 Meters Deep"?

Um desafio, já que o disco foi gravado numa gruta natural (Mira D’Aire) a 80 metros de profundidade e teve vários obstáculos logísticos para resolver. Por outro lado, foi simbólico, porque não só nos permitiu gravar um disco (“Hermitage”) que por razões óbvias não viria a ser muito tocado em turnê mas também porque foi feito em pleno pico pandémico e, curiosamente, encontrámos a liberdade e o conforto debaixo de terra que não tínhamos cá em cima.

Os maiores hits do Moonspell são "Alma Mater" e "Opium". Quais foram as inspirações para essas composições e que memórias você tem de escrevê-las?

São temas incontornáveis, mas tem histórias bem diferentes. O tema “Opium”, nasceu de uma pequena jam session em que se juntaram os 3 elementos mais característicos da canção e foi muito espontâneo. Já “Alma Mater” é uma espécie de hino oficioso da banda e levou mais tempo a ser composto, mas todos os elementos se foram conjugando para um tema que viria a se tornar clássico.

Você acha que algum álbum do Moonspell recebeu menos atenção do que deveria? Qual sua avaliação sobre isso?

É natural que sim, que existam alguns álbuns mais incompreendidos, como o “The Antidote” que foi ganhando muitos fãs com o passar do tempo ou até o “Sin/Pecado”. Eu não sei bem avaliar isso, penso que como os dois primeiros álbuns de Moonspell foram tão impactantes, os fãs ficariam muito tempo agarrados a eles, perdendo a oportunidade de ver Moonspell evoluir.

Quais cantores mais influenciaram no seu estilo de cantar?

Eu gosto mais de ouvir cantar do que cantar! Não nasci para cantar, foi algo que aconteceu! Os meus cantores/vocalistas preferidos são Quorthon do Bathory, Peter Steele do Type O Negative, Eric Adams do Manowar e Vladimir Korg do Chakal/The Mist.

O que os fãs brasileiros podem esperar dos shows por aqui em 2023? Teremos surpresas?

Vamos tocar um setlist especial no Brasil para incluir temas do disco “1755” que os fãs receberam tão bem! Queremos muito surpreende-los, é a nossa turnê com mais datas, creio eu, no Brasil e queremos celebrar estes 30 anos junto à nossa alcateia mais querida.

08 Mar 2023

Entrevista com Fernando Ribeiro (Moonspell)

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