27/10/2023 às 19:25 Entrevistas

Entrevista com Ricardo Confessori

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Ricardo Confessori é ex-baterista do Angra e Shaman. Hoje, atua na banda que leva seu sobrenome. Conversei com ele sobre as recentes polêmicas e também sobre assuntos como rock nacional e sua segunda saída do Angra. Confira!

Como surgiu a ideia da banda Confessori? Essa carreira solo estava prevista mesmo antes do Shaman acabar?

Eu não tinha realmente planos definidos, sabe? Na época, estávamos com o Shaman e, eu acho que quando você está com a banda, acabaria havendo uma espécie de "fogo amigo", porque é tudo muito parecido. Meu projeto solo não seria, por exemplo, eu tocando jazz, mas sim fazendo algo que se encaixasse melhor com a minha visão artística. Portanto, é uma questão de princípio para mim. Além disso, evito fazer workshops tocando músicas do Shaman quando estou com a banda. Tento focar na banda quando estamos juntos e, quando não estamos, eu exploro diferentes direções. Atualmente, estou em uma fase em que decidi pegar algumas músicas que talvez eu tivesse guardado para um futuro álbum de uma banda, e usei-as para lançar dois singles, "The Dark Passenger" e "Where the Eagles Fly". São canções que eu já tinha em mente e decidi incorporá-las ao meu trabalho solo. No entanto, isso não impede a possibilidade de, no futuro, formar uma nova banda. Ainda não tomei uma decisão definitiva a esse respeito.

A ideia é continuar lançando singles com diferentes vocalistas? Os fãs podem aguardar um álbum completo?

Pretendo continuar convidando músicos para colaborar, onde eu entro com a composição e eles contribuem com letras e ideias vocais. Parte do time é fixo, com Thiago Larenttes e Affonso Júnior, os dois guitarristas. Affonso já tocou comigo há bastante tempo, e Thiago também é um produtor que cuida da produção e mixagem, além da parte de vídeo. Também temos outros músicos convidados, como o tecladista Rasta, que foi uma escolha interessante. Apesar de ele não ser muito associado ao metal melódico, ele é um grande fã do gênero e vive no exterior. Minha ideia é lançar singles a cada três meses. Meu plano atual é lançar um novo single em janeiro. Estou estudando quem chamar, e certamente gostaria de trabalhar novamente com Dan Vasc e Bruno Sutter, que têm vozes incríveis. Quem sabe, quando tivermos quatro ou cinco músicas, possamos nos reunir para criar um álbum. Parece que a tendência agora é esquecer os álbuns físicos, pois as pessoas estão no Spotify e fazendo streaming de música, além de adquirirem merchandise. Este é o novo formato, já que as pessoas nem têm mais aparelhos para tocar CDs.

A nova música “The Dark Passenger”, com Bruno Sutter, fala sobre algo que precisamos “matar” dentro das nossas mentes para nos libertar. Você já fez isso?

O meu "Passageiro Sombrio", eu me livrei dele há algum tempo. É como se fosse aquele amigo que vive na sua cabeça durante toda a sua vida, mas chega um momento em que você precisa se livrar dele. É como se você estivesse matando um amigo de verdade na vida, e a sensação é praticamente a mesma. Quero deixar claro que não estou estimulando ninguém a cometer crimes, mas a sensação é bem parecida com a de matar alguém que está presente em toda a sua vida. No meu caso, esse "Passageiro Sombrio" era uma pessoa boa, um pouco ingênua, que via a maldade, mas sempre dava uma segunda chance, deixava para lá, tentava ser compreensivo, e assim por diante. Essa pessoa estava presente em vários aspectos da minha vida, incluindo relacionamentos, trabalho e amizades. Eu "matei" esse "Passageiro Sombrio" com a ajuda da filosofia conhecida como "Red Pill," que é uma corrente de pensamento e não uma ideologia, pois não tenta convencer ninguém. Quem decide tomar a "Red Pill" acorda para uma nova realidade, enquanto aqueles que optam por continuar na "Matrix" não me incomodam. Esse processo começou em 2016 e passou por várias fases ao longo dos anos. Em algumas fases, você fica revoltado por ter convivido com essa presença dentro de você por tanto tempo. Acredito que seja uma fase da vida que todos enfrentam, mas em momentos diferentes. Alguns a vivenciam cedo, outros tarde, e no meu caso, foi no meio da minha vida.

E sobre o que fala “Where the Eagles Fly”, com Dan Vasc nos vocais?

"Where The Eagles Fly" é uma música que eu e Dan compartilhamos uma visão semelhante. Falamos sobre a ideia de trazer de volta o “grande rock”. Eu sugeri a ele que tentasse incluir um slogan como "Make Rock Great Again." Ele pegou a essência do que eu queria transmitir na música e escreveu a letra, que basicamente trata de voltar a ter letras positivas, valorizar a virtude das pessoas, os fortes e os destemidos. Às vezes, essas mudanças são lideradas por indivíduos que não necessariamente agem sozinhos, mas têm um papel importante na preservação de valores essenciais na vida e no mundo. Hoje em dia, a batalha muitas vezes é para evitar mudanças drásticas e garantir que coisas importantes permaneçam intactas. Muitas pessoas parecem acreditar que tudo estava errado até agora e desejam mudar tudo, mas na minha opinião, isso é um tanto difícil de alcançar.

Algum pensador te chamou atenção para essa filosofia nova que você passou a seguir?

Ah cara, Jordan Peterson foi um cara que conheci. Eles tinham esse negócio onde os caras falavam sobre os problemas deles e já começavam a prever tipo, uma mudança no mundo, que os homens teriam que meio que se unir em filosofias para permanecerem homens, é meio que o óbvio, né? Mas hoje em dia, o óbvio às vezes nem é tão óbvio. E caras da música assim, sempre teve alguns, o próprio James Hetfield, sempre gostei do jeitão dele, o jeitão próprio Ozzy também, em algumas épocas da vida dele, não recentemente.

O que você tem a dizer sobre “misturar rock com política”? Como enxerga o caso do Roger Waters recente?

As músicas que ele escreveu foram geniais na época. Agora, eu não vejo ele dando nenhuma declaração que mostre que ele está atualizado com o que está acontecendo. Eu acho que ele parou no marketing dos anos 80 e ele repete essa fórmula. E ele não pode mudar, porque ele está preso a todos aqueles discos e tudo o que ele falou. Então, acho que ele precisa manter aquilo ali, porque ele não saberia. Eu não concordo com as opiniões dele, ele enaltece alguns caras. Mas ele não teve tanta audácia nesse show como teve no anterior, né? Ele veio durante o governo do cara que ele acusou de ditador. (Nota: Roger Waters veio no governo de Michel Temer). Agora ele já se sentiu mais em casa para falar, não sei se ele voltasse para fazer outro show naquele governo, não sei se ele falaria. Tem que ver. É porque foi levantada uma queixa crime contra ele, não sei se vocês lembram da primeira vez. Foi levantada uma queixa crime quando ele veio aqui e acusou o Presidente da República de ditador. Isso é uma ditadura? Como ele entra e sai 3 faz show então? Você entende o que eu tô falando? Ele é só um marketing, na minha visão. Tanto que ele não faz declaração nenhuma fora disso, né? Quer dizer, já vi algumas declarações dele, até recentemente ele falou alguma coisa, acho que foi da pandemia. Ele falou alguma coisa lá, não só ele, como Eric Clapton e vários caras grandes falaram coisas que estavam tomando decisões controversas. Acho assim, é muito fácil você apoiar uma causa sendo músico quando essa causa está dominando. Agora, quando você é contra, aí que você vê se a pessoa tem realmente aquilo de verdade, se é verdadeira a posição dela de ser contra, ou se é simplesmente uma jogada de marketing, porque hoje em dia você vê esse marketing de você, para ter visibilidade, falar o absurdo que quiser, coisas chocantes, fortes, controversas, aí você ganha audiência. Aí depois, não que aquela audiência toda vá querer se aprofundar em você, mas você ganhando essa visibilidade, acaba atraindo o seu público, graças a essa visibilidade, às vezes contra uma grande parte. Então, existe hoje em dia, é difícil saber quem acredita no que fala, quem só fala para causar. Eu sou uma pessoa que acredito no que eu falo, tudo que eu falo, eu acredito.

Qual foi a grande lição que você tirou desse fim do Shaman?

Cara, não sei, sempre segui em frente, né. Sempre seguir e não dar bola para as críticas. Sempre vai ter uma parte do público, dos fãs, que vão estar comigo, assim como ficaram comigo depois de um monte de críticas a meu respeito. Um monte de gente ficou do meu lado e muitos voltaram para o meu lado depois de um tempo. E eu só trabalho hoje em dia com pessoas que têm a mesma mentalidade que eu, porque não tenho mais afinidade com pessoas que realmente não estou fazendo isso para chegar a lugar nenhum. Estou fazendo minha música porque eu gosto, não é por uma questão financeira. Trabalhei anos e anos e consegui fazer meu pé de meia, então posso me dar o luxo de fazer a minha música com quem eu gosto. Por exemplo, não voltaria a tocar se alguém, uma pessoa radical da esquerda, me chamasse para tocar, jamais tocaria, independentemente do cachê. Nunca vou tocar, não entendo. Posso escolher, graças a Deus. E acho que todos deveriam, porque a melhor coisa que podemos fazer é criar essas tribos, né? O mundo está voltando a ser tribal de alguma maneira, porque as pessoas que estão pensando de um jeito, para não serem cerceadas do pensamento livre, elas terão que se unir.

Como é sua relação com o cenário do rock nacional dos anos 1980?

Eu estudei bateria em uma escola, na verdade, era uma faculdade na Bela Vista, chamada Fiarte. Na época, por volta de 1985 ou 1986, André Jung estudava lá. Ele estava no Titãs naquela época e tinha acabado de sair do Ira!, e parece que as duas bandas trocaram de bateristas. Eu lembro que ele era aluno do mesmo professor que eu, , ainda jovem, com uns 16 ou 17 anos, já cruzava com essas pessoas que estavam em um patamar elevado, mesmo que ainda não fossem super famosos. Logo depois, eles estouraram. Não sei exatamente em que ano aconteceu o estouro do Titãs, mas eu acredito que tenha sido em 1986. “Cabeça Dinossauro” foi lançado em 1986. O Ira! estava fazendo mais sucesso naquela época, e acho que essa foi a razão para a troca do André Jung para o Titãs. Depois, o Titãs estourou de forma incrível, e só se falava sobre eles. Também me lembro de ver o Paralamas do Sucesso no Rock in Rio, eles foram incríveis. O Pepeu Gomes, em vez de fazer o som tradicional, pegou um trio instrumental e fez um som metal no dia do metal. Os caras gringos também elogiaram muito a banda. Tive contato com outras bandas quando me formei no Objetivo. Uma vez, o Titãs tocou lá. Havia uma banda que eu gostava, Plebe Rude. O Capital Inicial também era legal. Éramos amigos do Yves, que frequentava shows do Shaman. O Dinho, que era do Capital, já me conhecia, ele foi ao show do Shaman e até abriu o show do Angra com sua banda Vertigo quando saiu do Capital. Foi quando o conhecemos, e ele é um cara gente boa.

Alguma banda dos anos 1990 te marcou?

Na nossa época, o que estava bombando era Raimundos, Nação Zumbi, que tocava aquele Maracatu pesado, e Charlie Brown Jr. O Charlie Brown abriu e tocou com o Angra em Santos, nos primeiros shows deles, em 1994, antes de estourarem. Eles tinham uma banda que era de metal, e também abriram um show do Angra. O Edu Falaschi, que depois se tornou o vocalista do Angra, também estava nesse show, abrindo com a sua banda Mithrium. É engraçado, saiu um monte de artistas daquele show. Entre essas três bandas, eu acho que o Charlie Brown Jr. é a banda que eu mais admiro, principalmente pela sua constância. Eles pegaram influências, inclusive do Infectious Grooves, que era uma banda formada pelos caras do Suicidal Tendencies, misturada com o Faith No More. Todas essas bandas daquela época estavam misturando estilos. O Charlie Brown Jr. meio que juntou essas três coisas com o apelo das letras nacionais, a malandragem das praias, e eu acho que foi uma das bandas mais sensacionais que o Brasil já teve de rock, na minha opinião. Se eu tivesse que escolher uma banda de rock brasileira, eu diria que o Charlie Brown Jr. foi uma das melhores.

Como foi seu retorno ao Angra no “Aqua” e sua saída novamente?

A gente voltou com o Angra, e a banda ficou parada um tempo durante essa transição. Quando eles voltaram, estavam com problemas com o Aquiles, que era o baterista na época. Eles sondaram alguns músicos, e eu tinha vontade de voltar também. Na época, eu ainda estava tocando com o Shaman e outra galera, porque o Andre Matos não estava mais no Shaman. A gente fez uma turnê junto com o Sepultura, e funcionou bem essa volta. Gravamos o disco "Aqua," que foi um disco legal. Ensaímos na minha casa, que era uma chácara no interior de São Paulo. Foi a mesma casa em que fizemos o “Ritual” do Shaman e parte do "Holy Land" também. Buscamos aquele mesmo astral, e os shows estavam bombando. No entanto, a turnê foi curta, encerrando no Rock in Rio 2011, que foi o último show da banda com toda aquela polêmica do som ter ficado ruim. Depois disso, o Edu acabou se desgastando com as críticas que recebeu por causa do Rock in Rio e mandou todo mundo a merda, saindo da banda. Aí, quando entrou o Fabio Lione, para mim, deu uma desmotivação. Vou ser sincero contigo, deu uma broxada legal. Sejamos sinceros, o Lione cantando o "Angels Cry" não fazia sentido para mim. Foi aí que decidi seguir em outra direção.

Você chegou a ver nascer alguma música do “Secret Garden”?

Sim, eu vi o nascimento das ideias durante os ensaios. No entanto, quando eles realmente começaram a compor o disco, eu já não fazia mais parte da banda, entende? Fiz alguns shows apenas para concluir a turnê, enquanto eles já estavam gravando o álbum com outro baterista ao mesmo tempo. Eu já tinha comunicado que não tinha interesse em participar.

27 Out 2023

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