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Entrevistas

"Dizem que death metal não combina com sax, mas não gosto de limites!" - Entrevista com Vince Wilquin (Fractal Universe)

Enquanto o novo disco “The Impassable Horizon” ainda não sai do forno, conversei com o vocalista, guitarrista e saxofonista (!) Vince Wilquin, da banda francesa de metal progressivo Fractal Universe!


Ele me contou como é tocar saxofone em uma banda de metal e fez comentários sobre os singles que já saíram, além de tocar no assunto da relação com os fãs! Boa leitura!



Gustavo: O novo single “A Clockwork Expectation” é bastante sombrio, além de bem técnico! Qual foi a inspiração para escrever essa música?


Vince Wilquin: Na verdade, o disco inteiro é conceitual. Fala sobre a ideia da morte e o que isso significa para o ser humano. A perspectiva de ser mortal, saber que nossas vidas acabam de alguma forma.


O disco tenta analisar isso do ponto de vista da pergunta: “O que nós fazemos mesmo sabendo dessa nossa condição? Como tirar algum sentido da vida?”. Então, essa música fala especificamente do momento em que tomamos consciência da nossa finitude.


Sim, a letra é bem sombria! Mas apesar disso, não tem a intenção de ser nada depressivo nem nada. Somos seres humanos querendo tirar algum sentido dessa situação toda. Isso é o que queremos no final.


Gustavo Maiato: Você acumula três funções na banda! Você toca guitarra, canta e toca saxofone! Como é ser essa pessoa multitarefa? É fácil fazer isso tudo na banda?


Vince Wilquin: Não é fácil, mas é bem empolgante! O sax é algo novo para mim. Foi meu primeiro disco tocando esse instrumento. Antes eu fazia a guitarra e a voz, sempre é algo meio complicado, focar nos dois instrumentos ao mesmo tempo.


É preciso encontrar tempo para praticar também. Isso é desafiador. Amo todos os instrumentos que toco, tento tirar o melhor proveito de cada um. Ao vivo, é preciso ser bem focado, nada pode sair do seu controle!


Gustavo Maiato: É difícil encontrar bandas de metal que tenham um saxofonista. Como as pessoas reagiram quando perceberam que estavam ouvindo um death meta progressivo... E do nada aparece um solo de sax!?




Vince Wilquin: Está sendo bem engraçado! Durante nossa premiere no YouTube, eu via comentários no chat. Muitas pessoas ficaram surpresas quando apareci com o sax. Muitas se surpreenderam positivamente.


Recebemos alguns comentários do tipo “saxofone não tem nava a ver com metal!”, mas a grande maioria das pessoas gostou. Eu estava ansioso pra saber a reação e fiquei feliz com esse feedback até agora.


Gustavo Maiato: Dentro do metal progressivo as bandas sempre têm bastante liberdade para fazer o que querem. Você acha que, nesse sentido, o prog é a crista da onda da inovação dentro do metal?


Vince Wilquin: Sim, definitivamente. Isso é algo que eu sempre pensei. Nunca quis limites na hora de compor. Posso pegar inspiração de dentro do metal, mas também de outros gêneros. Tem muita coisa bacana no fusion, jazz, música clássica etc.


Basicamente, o legal do prog é que você pode pegar o melhor de cada mundo. Pegar a energia do metal, algum aspecto do jazz, e tudo funciona bem junto. Adoro essas possibilidades de experimentar!


Gustavo Maiato: Vocês na verdade tocam o que ficou conhecido como technical death metal, algo mais pesado, mas que também carrega o experimentalismo do prog. Como você analisa esse gênero nos dias de hoje?


Vince Wilquin: Especialmente nos primeiros discos, tínhamos muita influência do death metal. Isso permanece até hoje, temos vocais extremos, muitos blast beats. Mas tentamos não nos limitar a isso.


Com esse novo disco, temos muitas dinâmicas diferentes, mais cores, mais estilos de vocal diferente. Isso que eu amo na hora de compor. Nesse álbum, cada música é única, foi isso que pensei ao escrever.




Gustavo Maiato: No instagram da banda, vocês costumam propor desafios para seus fãs tocarem as músicas do Fractal Universe. Como surgiu a ideia de fazer essa aproximação com seus seguidores?


Vince Winquin: Essa ideia surgiu no contexto da pandemia. Precisávamos achar novas maneiras de nos conectar com nossos fãs e conseguir novos fãs. Ficamos muito ativos no twich por exemplo, sempre interagindo.


A ideia desses desafios também surgiu de desafiar as pessoas a tentar tocar nossas músicas. Recebemos alguns vídeos já e é fantástico! Muitas pessoas realmente gastaram o tempo delas aprendendo algumas músicas nossas. É um nível novo de interação!


Gustavo Maiato: Na descrição do video de “A Clockwork...” a banda explicou que a ideia era filmar em um cenário bonito e natural. Vocês ficaram dois dias em condições extremas de calor! Como foi esse processo de gravação?


Vince Wilquin: Foi maravilhoso! Muito difícil, mas ótimo! Eu queria visitar esse local desde minha adolescência. Lembro de ficar de boca aberta com essa caverna gigantesca. Quando fomos lá com a banda, conseguimos reservar o lugar inteiro apenas para nós.


Lembro que quando o nosso baterista tocou a primeira nota, ouvimos um eco enorme! Foi uma experiência magnífica, mesmo fazendo 70 graus no interior! Descemos vários degraus levando um monte de equipamento.


Tudo foi um sucesso, temos uma equipe maravilhosa, nosso diretor, iluminador e toda equipe foram ótimos, deixaram tudo em boas condições.




Gustavo Maiato: De onde veio esse nome da banda? Vocês são fascinados por coisas do espaço e tudo mais?


Vince Wilquin: Nós não costumamos falar sobre esse tipo de assunto nas letras. A ideia do universo fractal é quando você encontra as mesmas leis e estruturas nas coisas pequenas e também nas infinitamente grandes do universo. É como se fosse uma teoria de todas as coisas que tenta unir a mecânica quântica e a relatividade geral. É uma perspectiva fascinante! Por isso escolhemos esse nome.


Também acho que o nome reflete a forma que escrevemos nossa música. O lado “fractal”. Quando você escuta nossa música, tem a paisagem geral que você pode perceber na primeira vez que ouve. Mas depois, você pode dar um zoom e encontrar detalhes. Nesse sentido, acho que nossas músicas são compostas dessa maneira fractal.


Gustavo Maiato: Falando um pouco do passado, na época do “Rhizomes of Insanity” (2019) vocês fizeram uma turnê com o Obscura. Como foi essa turnê? As duas bandas se deram bem?


Vince Wiquin: Foi maravilhoso! Tivemos sorte de poder fazer essa turnê. Ela acabou em março de 2020, uns cinco dias depois, a Europa inteira entrou em lockdown por causa da pandemia.


O pessoal do Obscura foi muito legal e nos apoiaram muito. Lembro que eles assistiram nosso show várias noites, o clima foi ótimo. Foi nossa primeira turnê europeia abrindo para uma banda grande.


Não podia ter sido melhor, foram quatro bandas dentro de um ônibus. Passamos por vários momentos legais juntos! Nunca vamos esquecer isso.


Gustavo Maiato: Você consegue lembrar algum momento particular dessa turnê que você considere como o ponto alto?


Vince Wiquin: Foram muitas coisas legais! Acho que o último show foi bem legal. Foi na cidade de Landshut, cidade natal do Steffen Kummerer, do Obscura. Foi especial porque nós ficávamos zoando uns com os outros no palco!


Tinha uns caras do God Dethroned, o pessoal encheu uns balões e encheram o lugar com eles. Lembro que eu era adolescente quando fui em um show do Obscura e via eles fazendo essas piadas entre eles. Então, foi ótimo estar nessa mesma posição 9 anos depois!


Gustavo Maiato: Quando pensamos em progressivo, existe aquela dualidade entre “técnica” e “feeling”. O que você acha dessa discussão? Dá para as duas coisas conviverem?


Vince Wiquin: Definitivamente sim! Acho que toda técnica que você aprende em um instrumento são apenas ferramentas para expressar emoções. Se você tem habilidade e pode tocar tudo que tem em sua mente, pode expressar qualquer ideia de música que você queira.


Você consegue expressar qualquer emoção que quiser. Músicas técnicas precisam sempre pensar nesse lado. O objetivo deve ser escrever uma música com significado, isso que nós focamos. Não é ser técnico só por ser, tem que servir algum propósito.