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Entrevista com Liv Kristine: "Às vezes, meus álbuns me assustam! Eles são muito pessoais, é como olhar no espelho"

Na década de 90, o Theatre of Tragedy mudou completamente o mundo do heavy metal. Uma das grandes responsáveis por isso foi a vocalista da banda, Liv Kristine, que introduziu uma maneira inédita de cantar, batizada depois de "A Bela e a Fera".


Anos depois, Liv passou por poucas e boas no Leaves' Eyes, com o fim do seu relacionamento com Alexander Krull que resultou em sua demissão da banda. Hoje em dia, Liv está cada vez mais fortalecida em sua carreira solo e está de banda nova, com a Coldbound.


Bati um papo com Liv, que pode ser lido na entrevista abaixo! Compartilhe com seus amigos!


Vamos começar pelo eu novo EP “Have Courage Dear Heart”. São nove faixas, algumas composições novas e algumas versões ao vivo. Como foi o processo de escolha dessas faixas?


Meus fãs têm sido muito pacientes! Não lancei nada entre 2016 e 2019. Então queria entregar algo especial. Assim que o Tommy Olson (ex-Theatre of Tragedy) mixou e masterizou o material, lançamos o EP.


Decidimos adicionar cinco faixas ao vivo como bônus para meus queridos fãs que foram ao meu show em Nagold, na Alemanha. Também quisemos dar um presente para aqueles que nunca puderam ver um show da minha carreira solo. Hoje em dia os shows estão muito raros, mas espero que tudo mude em breve.




As músicas de “Have Courage Dear Heart” são mais orientadas para o rock/piano. Não vemos nada de Symphonic Metal nem Gothic Metal. É bem diferente do tipo de música que você cantava no Theatre of Tragedy e no Leaves’ Eyes, certo?


Sim, você está certo. Não há symphonic metal neste álbum. Na verdade, nunca houve nada desse gênero em nenhum dos meus álbuns da carreira solo. Sempre mantive o symphonic apenas em minhas outras bandas e projetos.


Amo ser flexível, adoro ter a liberdade de me mover dentro de todo o espectro da música com meus lançamentos solo. É um verdadeiro privilégio para um artista. Eu diria que “Have Courage Dear Heart” combina influências do “Vervain” e do “Aegis”.


Um aspecto realmente importante do meu EP é que ele está conectado pessoalmente a mim. Esse título está literalmente tatuado no meu corpo, bem embaixo do meu coração. Ter a coragem de abrir o coração para respirar livre e profundamente novamente, para amar novamente, para amar a si mesmo e ser bom para si mesmo, para curar e praticar a compaixão em resposta ao mundo, mesmo que haja sofrimento em seu caminho.


Eu abraço o budismo, dizendo que temos que aceitar que há sofrimento na vida, porém, devemos ir para dentro e buscar a causa. Então haverá alívio e equilíbrio.





A música com maior número de streamings de sua carreira solo no Spotify é “Love Decay”. Por que você acha que esta é a música que seus fãs mais gostam? Que memórias você guarda dessa música em particular?


Sim! É uma pena que o álbum “Vervain” está esgotado há anos. Eu mesmo tive que comprar uma cópia usada no Ebay! Acho que a pessoa que me vendeu ficou muito surpresa! Michelle Darkness é um cantor incrível. Posso ouvir muito J. Cash em sua voz e adoro esse calor e aspereza.


É um contraste excelente com minha voz suave de soprano. Estamos morando a apenas alguns quilômetros de distância um do outro e costumamos usar o mesmo estúdio para gravações de vocais aqui na Alemanha. Seria muito bom cantar um dueto com Michelle novamente.




Recentemente, o Theatre of Tragedy - sua antiga banda - lançou uma edição especial de 25 anos do disco “Velvet Darkness They Fear”. Olhando para trás, qual foi a importância desse disco para você? O que você sente sobre esse disco hoje em dia?


É muito difícil decidir qual álbum foi o mais importante para mim. Vamos colocar desta forma: para mim pessoalmente foi o “Aegis”, para a banda provavelmente foi “Velvet Darkness They Fear”. Eu amo os dois álbuns e eles são marcos muito importantes na minha carreira, provavelmente os mais importantes.


Recentemente, a revista Metal Hammer elegeu as "100 maiores canções de metal do século XXI" (até agora). Dentre as eleitas está a música “Nymphetamine Fix”, do Cradle of Filth, que você colaborou no dueto com Dani Filth. Parabéns pela escolha da revista! Quais memórias você tem dessa colaboração?


Fiquei muito feliz e grata quando soube! Obrigado por mencionar isso. Lembro de receber um telefonema do Dani Filth perguntando se eu poderia fazer a “voz de mel” em um dueto. No dia seguinte, gravamos tudo! Estava absolutamente destinado a ser. Eu amo essa colaboração.


Nós nos encontramos em umas masmorras em Londres para gravar o clipe logo depois e nos divertimos muito lá... Era uma escuridão bastante lamacenta! O videoclipe é brilhante, devo dizer. Na época, quando ouvi em uma rádio local que “Nymphetamine” havia sido indicada para o Grammy, fiquei muito feliz! Foi uma das maiores experiências da minha história como artista.




Quais artistas (especialmente cantores) mais inspiraram você?


Sempre cantei, desde que era uma garotinha. Desde que me lembro, talvez aos três anos de idade. Sempre adorei música e havia muita música em nossa casa. A música foi meu primeiro amor. Quando eu tinha 3-4 anos, adorava cantar junto com Ozzy, ABBA, Queen, Monserrat Caballe e muitos outros na frente do espelho com uma escova de cabelo na mão!


 Estudei voz e música toda a minha vida, autodidaticamente, não em uma Universidade ou escola. É pura paixão para mim e tenho uma espécie de tarefa de vida estudando: “de onde isso é gerado? Como posso me expandir e crescer como cantora? O que isso significa para mim?”.


Cantar é como um amigo apaixonado, sendo minha luz orientadora por toda a minha vida, como um chamado interior universal. Está no meu DNA e manifesta meu verdadeiro eu autêntico de muitas maneiras.


É uma grande honra para mim agora ensinar meus próprios alunos de canto, alguns até do Brasil, pelos quais sou muito grata. Você pode encontrar mais sobre minhas sessões de treinamento vocal no meu site!




Você basicamente criou uma forma totalmente nova de cantar na época do Theatre of Tragedy. Juntamente com o Raymond István Rohonyi, vocês começaram a cantar de uma maneira que ficou conhecida como “A Bela e a Fera”, com uma voz feminina doce e uma voz masculina fazendo gutural. Como você analisa esse pioneirismo que você trouxe?


Eu cresci com o metal. Meus pais eram muito jovens quando nasci, em 1976. Tenho ouvido Black Sabbath desde que entrei neste planeta! No início dos anos 90, conheci o Raymond e alguns de seus amigos. Formamos uma banda e começamos a compor uma música que recebeu o nome de Theatre of Tragedy. Ray e eu éramos estudantes de inglês na Universidade de Stavanger, Noruega, e trouxemos nossa paixão por Shakespeare, Poe e Emerson para as letras na forma de poemas.


Havia tanta paixão em nossa música, simplesmente amávamos o que estávamos criando e na verdade não nos importamos muito com as reações do resto do mundo. Então o resto do mundo ficou sabendo da nossa arte e ela foi chamada de estilo “A Bela e a Fera”.


Tuomas Holopainen , tecladista do Nightwish, disse uma vez que “não haveria Nightwish sem o Theatre of Tragedy”. O que você acha disso? Quer dizer, acho que podemos dizer que você influenciou todas as outras vocalistas de metal como Tarja Turunen e Floor Jansen, certo?


Isso realmente me enche de gratidão. Sou muito grata por tudo que nossos fãs, amigos e seguidores têm e ainda estão nos dando. É uma verdadeira honra para mim e minha banda sermos chamados de pioneiros.


O que você pode nos falar sobre a Coldbound, sua mais nova banda?


Estou muito feliz e grata por ser um membro pleno do Coldbound. Somos da Suécia, Finlândia e Noruega! Então é uma receita mágica! Prometo a você!


Você passou por muitos novos começos em sua carreira. Como você se sente com isso? Foi difícil se reinventar ao longo dos anos?


Na verdade, não penso nisso nesses termos, devo dizer. Nunca pensei em reinvenção, tenho seguido o meu caminho. Novas ideias surgiram e eu adoro desafios quando se trata de criatividade, desenvolvimento de minha voz etc.


Cada álbum solo representa um capítulo em minha vida. Cada lançamento tem uma mensagem muito importante. Às vezes, quando estou olhando para os meus álbuns, as letras me assustam um pouco. É como se olhar no espelho. É muito pessoal e direto. Cada letra e cada tom são escritos e cantados de uma forma muito pessoal. Cada música é como uma oração.


Tudo vem do coração e é baseado na experiência de vida. Como mencionei acima, é uma grande honra ter recebido essa liberdade artística de meus fãs, amigos e seguidores. Eu cresci com minhas bandas e projetos. Eu diria que há uma essência na minha criatividade e essa é a luz, as cores, o brilho e a energia edificante do meu trabalho. É na minha resistência, na minha fonte, ancorada profundamente dentro de mim, que meus talentos me foram dados com um propósito, para iluminar este universo.


Estou absolutamente alinhada com o meu propósito ligado à música, vocalidade e orientação também para guiar outras pessoas em seus caminhos criativos, para fortalecer suas vozes e chamados internos.


Levei cerca de vinte anos para chegar a este ponto percebendo que não preciso de um monte de pessoas ao meu redor para manter minha carreira viva, basicamente ganhando dinheiro através de mim, além disso, me dizendo o que fazer, quando, como, com quem e por quê.


Hoje me sinto absolutamente alinhada com o trabalho artístico que estou fazendo, com a artista que sou e com o que estou dando ao meu público. Me sinto muito mais segura e forte hoje e minha carreira está toda em minhas mãos. Procuro aconselhamento com apenas algumas pessoas e a responsabilidade está nas minhas mãos.


Meu noivo, Michael, e sua gravadora Allegro Talent Media, são meu backup e melhores conselheiros. Minha expressão ganhou força de muitas maneiras: me sinto tão abençoada com minha família, meu filho, Michael e nossos dois cães, com nossa linda casa, meu trabalho diário com crianças autistas, meu ensino de treinamento vocal... Além dos meus próximos lançamentos com o Coldbound e carreira solo.


Em suma, é ao público que agradeço do fundo do meu coração criativo, porque vocês me deram a liberdade artística para ser criativa nesta vida e neste universo.




Você nasceu na Noruega, mas vive por muitos anos na Alemanha. Quais são as principais diferenças entre esses países? Quer dizer, a Noruega é conhecida por sua qualidade de vida e educação. É realmente um bom lugar para morar?


Estou com muita saudade de casa no momento. Não vejo minha família norueguesa há um ano e meio devido às restrições que temos agora. A Alemanha é um lugar adorável, nossa casa é linda, em uma velha cidade. O público de metal é incrível, entretanto, eu sinto que precisamos voltar para casa, ir de volta ao Norte. É um chamado interna. Preciso do oceano, da linha costeira, do clima agreste e da minha querida família.


Você tem alguma boa memória do Brasil?


Liv: Em primeiro lugar, minhas calorosas saudações ao Brasil! Já faz um tempo que não visito seu lindo país. Lembro muito bem dos shows com o The Sirens que fiz por aí. Eu simplesmente amo a paisagem! Os fãs de metal realmente dedicados e pacientes. Também amo as frutas que vocês têm!